Por Lucas Borges
Durante boa parte dos últimos quinze anos, governos, empresas e investidores se acostumaram a operar sob uma premissa que parecia permanente: juros baixos, liquidez abundante e inflação sob controle.
A crise financeira de 2008 inaugurou um período extraordinário na história econômica moderna. Bancos centrais expandiram balanços, inundaram mercados com liquidez e sustentaram o crescimento global por meio de estímulos monetários sem precedentes. Mesmo durante a pandemia, quando a atividade econômica foi abruptamente interrompida, a resposta foi ampliar ainda mais esse modelo.
Hoje, porém, os sinais apontam para uma mudança estrutural.
Os recentes conflitos no Oriente Médio, a reorganização das cadeias produtivas globais, o avanço do protecionismo econômico e a crescente fragmentação geopolítica não representam eventos isolados. São manifestações de uma transformação mais profunda da economia mundial.
Estamos entrando em um ambiente onde a inflação volta a ser influenciada por fatores de oferta, energia, logística, segurança e geopolítica.
O petróleo é apenas a face mais visível desse processo.
As tensões envolvendo o Irã, o estreito de Ormuz e os interesses estratégicos americanos reacenderam um temor que parecia distante desde os anos 1970: a possibilidade de choques energéticos recorrentes. Ainda que o conflito não evolua para uma interrupção significativa do fluxo global de petróleo, o simples aumento do prêmio de risco embutido na commodity já produz efeitos econômicos relevantes.
O problema é que esse movimento ocorre justamente quando os principais bancos centrais do mundo ainda enfrentam dificuldades para concluir o combate inflacionário iniciado após a pandemia.
Nos Estados Unidos, a inflação segue resiliente. Os dados mais recentes reforçam a percepção de que os juros precisarão permanecer elevados por mais tempo, reduzindo o espaço para cortes agressivos por parte do Federal Reserve.
Essa mudança tem implicações profundas.
Durante anos, os investidores puderam conviver simultaneamente com crescimento econômico, expansão fiscal e custo reduzido de financiamento. Esse equilíbrio tornou-se cada vez mais difícil.
O que está emergindo é um novo regime econômico caracterizado por três elementos centrais: juros estruturalmente mais elevados, maior volatilidade geopolítica e crescente disputa entre Estados por recursos estratégicos, tecnologia e influência econômica.
Ou seja, os países emergentes passam a enfrentar desafios adicionais.
Historicamente, economias em desenvolvimento dependem da abundância de liquidez internacional para financiar investimentos, reduzir custos de capital e sustentar ciclos de crescimento. Quando os Estados Unidos mantêm juros elevados, parte relevante desses recursos retorna para ativos considerados mais seguros.
O Brasil sente diretamente esse efeito.
Por um lado, o país possui vantagens importantes. Diferentemente de diversos emergentes importadores de energia, o Brasil tornou-se exportador líquido de commodities energéticas. Isso ajuda a mitigar parte da pressão cambial gerada pela alta do petróleo e oferece uma proteção relativa diante dos choques externos.
Por outro lado, os desafios domésticos permanecem significativos.
As expectativas de inflação voltaram a se deteriorar. As projeções seguem acima do teto da meta, enquanto a trajetória esperada para a Selic passou a incorporar juros mais altos por mais tempo.
Mais importante ainda é a percepção crescente de risco fiscal.
Nos últimos meses, investidores internacionais passaram a observar com maior atenção não apenas as despesas explícitas do governo, mas também os mecanismos parafiscais e os estímulos indiretos que ampliam a demanda agregada em um momento em que o Banco Central ainda tenta consolidar a convergência inflacionária.
Esse ponto merece destaque.
A economia brasileira vem demonstrando uma resiliência superior à esperada. O crescimento tem surpreendido as projeções, o mercado de trabalho permanece robusto e diversos programas de estímulo ao crédito sustentam a atividade econômica. Contudo, esse dinamismo produz um efeito inevitável: reduz a necessidade de cortes adicionais de juros e dificulta o trabalho da política monetária.
Em outras palavras, o Brasil enfrenta um paradoxo.
Aquilo que, em um primeiro momento, parece uma boa notícia — atividade econômica mais forte — acaba contribuindo para prolongar o período de juros elevados.
A consequência é conhecida.
O custo do capital permanece alto, investimentos produtivos são adiados, o crédito torna-se mais caro e a expansão potencial da economia continua limitada.
Mas talvez a questão mais relevante não esteja na política monetária.
A crescente tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos sugere que as disputas econômicas do futuro serão mais sobre estratégia. Tarifas, tecnologia, minerais críticos, infraestrutura digital e segurança econômica passaram a integrar o mesmo tabuleiro geopolítico.
O mundo está gradualmente substituindo a globalização irrestrita por uma lógica de blocos, interesses nacionais e cadeias produtivas consideradas estratégicas.
Nesse cenário, países que oferecem previsibilidade institucional, responsabilidade fiscal e segurança regulatória tendem a atrair investimentos. Aqueles que permanecem presos a ciclos recorrentes de incerteza tornam-se mais vulneráveis aos choques externos.
Para o Brasil, essa talvez seja a principal lição do momento atual.
O verdadeiro risco não está apenas no petróleo, no Oriente Médio ou na próxima decisão do Federal Reserve.
O risco está em acreditar que a próxima melhora do cenário internacional resolverá problemas que continuam sendo essencialmente domésticos.
A era da abundância monetária ficou para trás.
A nova economia é marcada por capital mais caro, maior competição geopolítica e crescimento mais seletivo. Os países que compreenderem essa transformação e fizerem os ajustes necessários estarão melhor posicionados para prosperar.
Aqueles que continuarem apostando em soluções de curto prazo poderão descobrir que o custo da adaptação será muito maior do que o custo das reformas.



