Por Lucas Borges
Segundo números apresentados pelo Ministério do Trabalho com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o Brasil alcançou 62,2 milhões de trabalhadores com vínculo formal ativo, um crescimento de 3,6% em relação ao período anterior. À primeira vista, trata-se de uma notícia positiva. Contudo, uma análise da composição desse avanço revela um quadro mais complexo.
O principal motor desse crescimento não foi o setor privado.
Os vínculos ligados ao setor público cresceram 8,6% no período, saltando de 12,7 milhões para 13,8 milhões de trabalhadores. Isso representa um acréscimo superior a um milhão de postos de trabalho vinculados ao Estado. Já os trabalhadores celetistas do setor privado registraram crescimento de apenas 2,2%.
A diferença é ainda mais evidente quando observada a dinâmica mais recente do mercado. No acumulado de 2026, o emprego público avançou 7,8%, enquanto os vínculos privados cresceram apenas 0,81%.
Os números não significam necessariamente um problema imediato. Em momentos de desaceleração econômica, o setor público pode atuar como estabilizador da atividade, preservando renda e sustentando parte da demanda agregada. O problema surge quando o crescimento do emprego formal passa a depender de forma crescente da expansão da máquina estatal enquanto o setor produtivo perde dinamismo.
Os sinais de desaceleração do setor privado já começam a aparecer.
Em abril, o saldo líquido de criação de vagas formais foi de apenas 85 mil postos, o pior resultado para o mês desde 2020. O setor de serviços continua sustentando parte da geração de empregos, mas segmentos importantes da economia apresentaram desempenho mais fraco. Comércio e agropecuária registraram fechamento líquido de vagas no período, evidenciando um cenário menos robusto do que os números agregados sugerem.
Essa distinção é importante porque nem toda vaga formal possui o mesmo impacto econômico.
Empregos criados no setor privado tendem a estar associados à expansão da produção, ao aumento dos investimentos e aos ganhos de produtividade. Já o crescimento do emprego público depende da arrecadação tributária e amplia compromissos permanentes de gasto, especialmente com folha salarial e previdência.
Em outras palavras, enquanto o setor privado gera a maior parte da riqueza que financia o Estado, o crescimento excessivamente concentrado na estrutura pública pode elevar a rigidez fiscal e reduzir a capacidade de investimento do governo no futuro.
Essa discussão remete a um desafio histórico da economia brasileira: a dificuldade de elevar produtividade.
Ao longo das últimas décadas, o país avançou em formalização, inclusão financeira e acesso ao empreendedorismo. Entretanto, continua enfrentando obstáculos estruturais para transformar esses avanços em crescimento sustentado.
A questão é: elevar a capacidade da economia brasileira de criar incentivos para que empresas cresçam, invistam e gerem empregos de forma sustentável.
Renegociar dívidas pode aliviar problemas imediatos (o governo federal prepara um programa de renegociação de dívidas para MEIs), ampliar o teto do MEI pode corrigir distorções acumuladas ao longo dos anos. Mas nenhuma dessas medidas substitui reformas capazes de tornar o crescimento empresarial mais simples, previsível e competitivo.
O desafio é criar um ambiente em que o setor produtivo consiga crescer de forma consistente, gerando riqueza para sustentar o próprio desenvolvimento econômico.
Enquanto essa discussão permanecer em segundo plano, o país continuará celebrando indicadores positivos no curto prazo sem necessariamente resolver os obstáculos que limitam seu crescimento no longo prazo.




