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O estreito caminho para a queda sustentável dos juros

Durante muitos anos, acreditou-se que bastaria ao Banco Central calibrar corretamente a taxa de juros para garantir estabilidade econômica. Hoje, torna-se evidente que a política monetária sozinha perdeu parte dessa capacidade.

Stefany | Animo Creative

Artigo 10.07

Por Lucas Borges

As projeções mais recentes consolidadas pelo Boletim Focus indicam pequenas revisões para inflação, juros e câmbio. Individualmente, nenhuma delas representa uma ruptura de cenário. Coletivamente, porém, elas sugerem que o país passou a operar em um ambiente de maior persistência inflacionária, menor previsibilidade fiscal e redução do espaço para a política monetária atuar como principal instrumento de estímulo à atividade econômica.

Em outros momentos, choques inflacionários eram tratados como eventos essencialmente transitórios. A elevação do petróleo, uma quebra de safra ou uma desvalorização cambial costumavam produzir impactos temporários sobre os índices de preços, posteriormente absorvidos pela política monetária.

O cenário atual é diferente.

A inflação brasileira passou a refletir uma combinação de fatores que atuam simultaneamente. Choques geopolíticos, mudanças climáticas, volatilidade cambial, expansão fiscal, mercado de trabalho resiliente e expectativas menos ancoradas deixaram de atuar de forma isolada para compor um ambiente de inflação estruturalmente mais resistente. Quando diversos choques se sobrepõem, a convergência para a meta torna-se mais lenta e exige um esforço monetário maior.

É justamente nesse contexto que a taxa básica de juros permanece elevada por mais tempo.

A manutenção de juros altos costuma ser interpretada apenas como uma resposta do Banco Central à inflação corrente. Essa leitura, embora parcialmente correta, tornou-se insuficiente. Bancos centrais modernos formulam suas decisões olhando principalmente para o comportamento esperado da inflação nos próximos anos. Quando empresas, investidores e consumidores passam a acreditar que os preços continuarão crescendo acima da meta, essa expectativa influência negociações salariais, contratos de longo prazo e decisões de investimento, tornando a própria inflação mais persistente.

A política monetária passa, então, a combater não apenas a inflação observada, mas também a perda de confiança na sua convergência futura.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o espaço para novos cortes da Selic permanece extremamente limitado.

Mesmo que parte das pressões externas tenha diminuído (como a estabilização dos preços internacionais do petróleo após os episódios mais agudos de tensão geopolítica) novos fatores passaram a exercer influência sobre o cenário doméstico. A depreciação do real, os efeitos climáticos sobre alimentos, a expansão da demanda impulsionada pelo setor público e as incertezas em torno da trajetória fiscal ampliam o grau de cautela exigido.

Ao mesmo tempo, o ambiente internacional deixou de funcionar como um amortecedor para economias emergentes.

Durante a década passada, taxas de juros próximas de zero nas principais economias desenvolvidas estimularam um intenso fluxo de capitais para países como o Brasil. O diferencial de juros favorecia aplicações em mercados emergentes e contribuía para fortalecer moedas locais.

Essa realidade mudou.

Com uma economia americana ainda resiliente e um Federal Reserve mantendo juros elevados por mais tempo, parte relevante desse capital voltou a encontrar nos Estados Unidos uma combinação rara de segurança, liquidez e rentabilidade. O resultado é um dólar estruturalmente mais forte, moedas emergentes mais pressionadas e menor margem para que bancos centrais reduzam juros sem provocar instabilidade cambial.

O Brasil continua oferecendo um dos maiores diferenciais de juros reais do mundo. Ainda assim, esse prêmio deixou de ser suficiente para neutralizar completamente os riscos associados ao ambiente doméstico.

Embora Banco Central e Ministério da Fazenda possuam objetivos distintos, suas decisões tornaram-se cada vez mais interdependentes. Uma política fiscal expansionista tende a estimular a demanda agregada justamente quando a política monetária busca desacelerar a economia para controlar a inflação. O resultado é um esforço maior do Banco Central para produzir o mesmo efeito desinflacionário.

Temos então uma perda de eficiência da política monetária.

Na prática, isso significa que cada ponto percentual de redução da inflação exige juros mais elevados durante mais tempo. O custo desse processo é distribuído por toda a economia: crédito mais caro, menor investimento privado, desaceleração da atividade e crescimento potencial reduzido.
É por essa razão que o debate começa a migrar da discussão sobre o nível da Selic para a qualidade da coordenação entre política fiscal e monetária.

Essa coordenação ganha importância adicional à medida que o calendário eleitoral se aproxima.
Mercados financeiros tradicionalmente precificam expectativas futuras. No caso brasileiro, as projeções para câmbio, inflação e juros entre 2027 e 2029 começam a incorporar não apenas variáveis econômicas, mas também hipóteses sobre a condução da política econômica após as eleições, e avaliar a consistência das propostas capazes de restaurar previsibilidade fiscal, reduzir prêmios de risco e ampliar o crescimento potencial.

Durante muitos anos, acreditou-se que bastaria ao Banco Central calibrar corretamente a taxa de juros para garantir estabilidade econômica. Hoje, torna-se evidente que a política monetária sozinha perdeu parte dessa capacidade. Juros continuam sendo um instrumento poderoso, mas não conseguem compensar indefinidamente problemas relacionados à produtividade, ao ambiente institucional, à qualidade do gasto público e à ausência de uma estratégia fiscal de longo prazo.

O debate econômico brasileiro, portanto, entrou em uma nova fase.

A pergunta deixou de ser quando os juros começarão a cair.

A questão que realmente importa é quando o país conseguirá reunir as condições necessárias para que eles permaneçam baixos de forma sustentável.