Brasil Assume Liderança na Exportação de Commodities Agropecuárias, Mas Desafio Está na Agregação de Valor
(O Brasil precisa transformar sua vantagem comparativa em uma vantagem competitiva.)
Lucas Borges*
Nos últimos anos, o agronegócio brasileiro consolidou sua posição como um dos principais players no mercado global, impulsionado por eventos geopolíticos e conjunturais que redirecionaram fluxos comerciais. A guerra comercial entre China e Estados Unidos, a pandemia de COVID-19 e o conflito entre Rússia e Ucrânia foram fatores determinantes para que, a partir de 2023, o Brasil ultrapassasse os EUA como o maior exportador mundial de commodities agropecuárias e agroindustriais.
Em 2024, as exportações brasileiras do setor atingiram US$ 137,7 bilhões, superando em US$ 14,4 bilhões os números americanos no mesmo período. Esse crescimento foi impulsionado principalmente por safras recordes de grãos, com destaque para soja e milho. Enquanto os EUA enfrentaram uma retração de 14% em suas exportações desses produtos entre 2022 e 2023, devido a condições climáticas adversas, o Brasil registrou um avanço de 5,7%. Esse desempenho robusto demonstra a capacidade do agronegócio brasileiro de expandir sua presença global, consolidando mercados tradicionais e conquistando novos destinos para suas exportações.
Mas, ao observar o mercado de produtos de maior valor agregado, como frutas, vegetais, alimentos processados, vinhos e cervejas, a diferença entre os dois países ainda é expressiva. Em 2024, os EUA exportaram US$ 75,5 bilhões nessas categorias, enquanto o Brasil alcançou apenas US$ 10,7 bilhões. Essa disparidade reflete a necessidade de avanços significativos na industrialização e na diferenciação de produtos dentro do agronegócio nacional. Atualmente, grande parte das exportações brasileiras ainda se concentra em produtos in natura, cuja precificação é mais volátil e dependente das oscilações do mercado internacional.
A dependência de commodities impõe riscos ao setor, tornando-o vulnerável às oscilações do mercado internacional. A solução passa pelo aumento dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, inovação e fortalecimento de cadeias produtivas que agreguem valor aos produtos brasileiros. A entrada em nichos de mercado com produtos premium e sustentáveis pode gerar maior competitividade e ampliar a presença do Brasil em mercados sofisticados. Empresas do setor precisam investir em certificações internacionais, rastreabilidade e práticas ESG para agregar credibilidade e valor aos seus produtos. A digitalização e o uso de tecnologia para aumentar a eficiência produtiva também devem ser prioridades para o setor.
Com a realização da COP30 no Brasil esse ano, abre-se uma janela de oportunidade para o país liderar discussões sobre biocombustíveis, sustentabilidade e descarbonização. A construção de parcerias comerciais alinhadas a esses temas pode ser um diferencial competitivo para o agronegócio brasileiro. O crescimento da demanda global deve ser encarado como um vetor de expansão, com potencial para consolidar o Brasil como um líder em soluções sustentáveis para a produção agropecuária.
A liderança na exportação de commodities agropecuárias é um marco significativo, mas deve ser acompanhada por um movimento estratégico de diversificação e sofisticação da pauta exportadora. Para garantir um crescimento sustentável e menos suscetível a choques externos, o Brasil precisa transformar sua vantagem comparativa em uma vantagem competitiva, investindo em industrialização, tecnologia e novos mercados. Esse desafio exige políticas públicas assertivas e incentivos para inovação.
*Lucas Borges, pesquisador e financista, especialista em Private Equity pela HBS e Financial Accounting pela LSBF.
Membro do Comitê de Empresas Familiares do Insper e Membro do Harvard Alumni Club Brazil (HACB)