Uma Conversa com Brás Cubas: Reflexões Póstumas de um Autor Sobre o Mundo Contemporâneo
Permitam-me, senhores, tomar-lhes alguns minutos — sem pretensão, sem urgência. Afinal, quem já cruzou os umbrais da existência dispõe de uma métrica mais generosa para o tempo. E se me apresento assim, como Brás Cubas, é apenas para lhes oferecer a vantagem da perspectiva que só a ausência permite.
Brás Cubas — nome que, segundo alguns, evoca ironia. Segundo outros, desconforto. Gosto da imprecisão. Ela me favorece. Permite-me observar o mundo sem me comprometer com suas verdades transitórias. Hoje, ao contemplar o panorama atual, encontro no Mercado&Opinião — esse salão reservado às inteligências mais refinadas — um palco ideal para minhas digressões.
Enquanto revisito os corredores invisíveis da política e da economia, noto sem surpresa os ecos de impérios em exaustão. A história, senhores, é menos uma linha reta e mais um compasso que repete círculos com outras roupas. Vejam o caso dos Estados Unidos: outrora inabalável, hoje sustentado por estruturas que, embora impressionantes na forma, demonstram fragilidade no conteúdo.
O Império, os Círculos e a Deglutição
Quando redigi, de meu além particular, aquela dedicatória ao verme — sim, aquela mesma, que roeu minhas carnes sem cerimônia —, visava algo mais profundo do que uma provocação estilística. Desejava apontar para o fato de que tudo que reluz apodrece. Com tempo, com silêncio, com precisão.
O império americano, segundo o professor Richard Wolff, enfrenta o desconforto da dívida, a instabilidade da autoridade e a perda gradual da hegemonia. Isso não constitui um colapso — é um ritual. A economia, sustentada por corporações sem liquidez real, por déficits contínuos e pela dependência de credores externos, apenas antecipa a narrativa que virá. E mesmo assim, os discursos continuam adornados. É o velho truque: encantar para adiar.
Mercado&Opinião: Onde a Superfície Não Engana
Nesse contexto, o papel do Mercado&Opinião, enquanto think tank privilegiado, ganha contornos de raridade. Aqui, os argumentos são decantados antes de serem servidos. Aqui, o ruído cede espaço à escuta. As análises não se precipitam, mas se aprofundam.
É neste ambiente que as reflexões se tornam ferramentas, e as ideias não precisam de palco — apenas de interlocutores atentos. Como os senhores. Como os que compreendem que as grandes transformações não se anunciam em manchetes. Elas se insinuam nos detalhes.
Das Máscaras à Matéria: A Narrativa em Xeque
Ao observar a crescente multipolaridade que se forma fora dos círculos ocidentais, vejo a repetição daquilo que me foi familiar: a substituição do centro pelo entorno. O dólar, segundo dizem, já não goza da primazia anterior. O comércio desloca-se. As alianças mudam. Nada de novo — apenas o velho ensaio da alternância disfarçado de modernidade.
Recordo-me do meu emplastro. Aquela fórmula inócua, mas promissora, que tinha por ambição aliviar os males da humanidade. Não funcionava, mas era convincente. Assim me parecem algumas das soluções propostas hoje: não curam, porém seduzem.
Sobre Presença, Linguagem e Decisão
O valor estratégico da palavra
Não me cabe, nesta conversa, oferecer fórmulas. Os senhores, certamente, saberão o que fazer — ou, ao menos, saberão a quem delegar o encargo. Permitam-me, porém, sublinhar um ponto que me parece, à moda antiga, incontornável: a linguagem.
Nos tempos em que tudo se converte em fluxo cambial, gráficos oblíquos e projeções de horizonte instável, a força já não reside no dado que se mostra, mas no olhar que o interroga. A palavra, senhores, não perdeu sua potência: apenas trocou o púlpito pela planilha.
Discursos como patrimônio e instrumento de influência
A retórica, essa senhora antes reservada aos salões acadêmicos e às páginas de tribuno, converteu-se em ativo estratégico. A construção discursiva, ora vestida de storytelling, ora de relatório executivo, tornou-se patrimônio simbólico. E a linguagem construída, longe de ser ornamento, opera hoje como ferramenta de real influência — tão tangível quanto qualquer derivativo financeiro.
Relatórios que comprovam o óbvio
No universo dos negócios, observo com certa curiosidade o modo como tantos relatórios, brancos de papel e cinzentos de alma, são redigidos com o único intuito de provar aquilo que já se desejava como verdade. Poucos arriscam dizer o que ainda não foi calculado; poucos ousam formular o que ainda não tem cifra.
A contenção elegante dos conselhos corporativos
Nas altas esferas, reina uma contenção elegante — fala-se muito, escuta-se pouco e comunica-se apenas o necessário para que nada, de fato, se altere. Quando se comunica, privilegia-se o palatável ao verdadeiro. O apaziguamento ao dissenso. O seguro ao necessário.
A palavra como moeda de valor volátil
A linguagem, neste cenário, tornou-se uma moeda mais volátil do que o próprio mercado. A escolha de uma palavra — sim, uma só — pode deslocar expectativas, afetar índices, desencadear ajustes. A entonação de uma frase, dita num conselho deliberativo, pode pesar mais que o EBITDA do trimestre.
Hoje, onde valor e percepção se confundem, o verbo transforma-se em capital simbólico. Dizer tornou-se uma forma de fazer — e, às vezes, uma forma de evitar que algo se faça.
O Valor do Silêncio e a Arte da Escuta
No Mercado&Opinião, o silêncio não é ausência. É pausa que pensa. Nesse intervalo sutil, o essencial encontra espaço para emergir.
Aprecio essa atmosfera. Longe da pressa, revela-se a presença genuína: de ideia, de crítica e, sobretudo, de futuro.
Os impérios não ruem por falta de ouro. Ruem quando suas histórias deixam de convencer. Quando seu discurso já não encontra ressonância. Quando o prestígio torna-se ornamento. Brás Cubas compreendia isso antes mesmo de encerrar sua própria narrativa.
À Memória que Persiste
Não tive filhos, é verdade. Tampouco herdeiros. Mas deixei páginas. E nelas, uma forma de enxergar. Uma lente que, mesmo séculos depois, talvez ainda ilumine.
O que os senhores farão com isso, não me cabe dizer. Mas agradeço pela escuta. E dedico estas palavras — como sempre — àquilo que permanece quando tudo o mais se desfaz.
Brás Cubas
Aristocrata, autor post-mortem e observador da condição humana
Publicação patrocinada com insights do Mercado&Opinião, o mais refinado círculo de análise empresarial do nosso tempo.