Por Lucas Borges
O Brasil passa por um momento de baixo crescimento com inflação persistente (que volta ao debate em um momento de desaceleração global e pressões ainda presentes sobre os preços).
O conceito de estagflação carrega um paradoxo. Em condições usuais, a perda de fôlego da atividade tende a arrefecer a inflação. Na estagflação, essa relação se rompe: a economia perde dinamismo, o emprego enfraquece e, ainda assim, os preços seguem pressionados. Trata-se de um dos cenários mais desafiadores para a condução da política econômica.
Estamos em meio a sinais difusos no cenário internacional. De um lado, indicadores de crescimento mais moderados nas principais economias. De outro, uma inflação que tem se mostrado mais resistente do que o esperado, mesmo após ciclos prolongados de aperto monetário. A combinação reacende uma preocupação que parecia restrita a episódios históricos.
O problema está no dilema que se impõe aos formuladores de política. Combater a inflação exige, em geral, a manutenção de juros elevados, o que tende a esfriar ainda mais a atividade. Estimular o crescimento, por sua vez, pode implicar maior tolerância com a inflação. Nesse contexto, os instrumentos tradicionais passam a operar com eficácia reduzida.
Mais do que um desafio técnico, a estagflação tem efeitos diretos sobre o cotidiano econômico. A perda de poder de compra, somada à menor geração de renda, compromete o consumo. Para as empresas, o ambiente combina custos elevados, demanda mais fraca e menor previsibilidade. O resultado é uma economia que avança pouco, sem conseguir aliviar as pressões inflacionárias.
Historicamente, episódios de estagflação estiveram associados a choques de oferta relevantes, como a crise do petróleo nos anos 1970, que elevou custos em escala global ao mesmo tempo em que reduziu o ritmo de crescimento. O contexto atual é distinto, mas guarda semelhanças: cadeias produtivas mais fragmentadas, tensões geopolíticas e uma reorganização do comércio internacional que tende a encarecer processos e reduzir ganhos de eficiência. Para países emergentes, o cenário é ainda mais sensível. Com menor margem de manobra e maior exposição a fluxos externos, essas economias tendem a sofrer de forma mais aguda os efeitos de um ambiente global adverso. No caso brasileiro, o desafio se soma a entraves já conhecidos, como juros estruturalmente elevados, baixa produtividade e um ambiente de negócios complexo.