Por Lucas Borges
O Brasil em geral sofre por excesso de obstáculos e enfrenta um desafio recorrente: transformar potencial em crescimento.
Mesmo com inflação relativamente controlada, o país permanece convivendo com um dos períodos de juros reais mais elevados de sua história recente, o que tem dificultado decisões de investimento e expansão por parte das empresas. Na prática, isso significa menos projetos saindo do papel, maior cautela e um ambiente de negócios que exige eficiência e resistência.
Mas o custo do capital é apenas parte da equação.
Há um segundo entrave: a burocracia. O ambiente empreendedor brasileiro ainda opera sob um nível elevado de complexidade regulatória, insegurança jurídica e sobreposição de regras, o que aumenta o custo de operar e reduz a previsibilidade (dois fatores críticos para qualquer decisão de investimento de longo prazo).
Nesse cenário, cresce a percepção de que o Brasil enfrenta um problema econômico e de coordenação. Juros elevados, incerteza fiscal e excesso de entraves administrativos acabam se reforçando mutuamente, criando um ciclo de baixa confiança.
Esse foi o tema das discussões recentes entre lideranças empresariais, políticas e de comunicação reunidas no último encontro do Mercado & Opinião.
De acordo com os participantes, o momento atual não é de otimismo nem de pessimismo, mas de espera estratégica (uma leitura que sintetiza bem o posicionamento de quem precisa tomar decisões em meio a variáveis ainda indefinidas).
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que o Brasil corre o risco de se tornar “o país do atraso, por falta de liderança”, ao mesmo tempo em que questionou a manutenção da taxa básica em níveis elevados, próximos de 14,75% ao ano. A fala reflete uma preocupação recorrente no setor produtivo: o custo do dinheiro segue incompatível com ciclos mais robustos de crescimento.

“O Brasil corre o risco de se tornar o país do atraso, por falta de liderança”
Sem avanços na simplificação do ambiente de negócios (especialmente em termos regulatórios e tributários), o Brasil continuará operando abaixo do seu potencial.
Nesse ponto, ganha força uma agenda mais ampla: a necessidade de um ambiente menos burocrático, mais previsível e capaz de estimular a tomada de risco produtivo. O empreendedor brasileiro, historicamente resiliente, continua disposto a investir (mas exige, cada vez mais, clareza de regras e estabilidade).
No ambiente econômico sensível à percepção, a forma como o país comunica suas prioridades e sua direção influencia diretamente a confiança dos agentes. Como destacou João Vitor Xavier, há um papel relevante em “discutir o país que a gente quer” e ouvir aqueles que fazem a economia funcionar, reforçando a importância da construção de uma visão compartilhada de desenvolvimento.
O encontro reuniu ainda Flávio Rocha, empresário e presidente do Conselho de Administração do Grupo Guararapes (Riachuelo), que voltou a defender a necessidade de um ambiente mais livre para empreender, com menor intervenção estatal e maior valorização da iniciativa privada; e Alfredo Cotait, presidente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), que ressaltou a importância de fortalecer o comércio e reduzir entraves que ainda dificultam o dia a dia de quem empreende no país.

“O Brasil não precisa reinventar seu potencial empreendedor. Precisa, antes, remover os entraves que o impedem de se materializar.”
Marcos Koenigkan, CEO Mercado & Opinião.