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Carry trade mostra fragilidade; parceria com EUA pode trazer estabilidade

O país precisa de capital internacional e de um ambiente interno menos burocrático e mais competitivo para atrair recursos de longo prazo.

Animo Creative

22.08

Lucas Borges

A relação atual entre Brasil e Estados Unidos gera um clima de tensão diplomática que afeta setores-chave da economia. Estimativas indicam que essa tensão pode reduzir em até 0,2 ponto percentual o PIB nacional e ameaçar milhares de empregos industriais. Ainda assim, é justamente neste momento que a dimensão estratégica da parceria entre os dois países se torna mais evidente.

Os Estados Unidos reúnem vantagens únicas no cenário internacional: um mercado de capitais profundo, um ambiente de inovação incomparável e influência decisiva na definição de padrões globais. Para o Brasil, ampliar a cooperação com esse ecossistema significa atrair investimentos de longo prazo, integrar-se às cadeias globais de valor e acelerar agendas como a digitalização da economia.

No comércio, a relação tem se mostrado robusta: em 2024, as trocas bilaterais somaram US$ 127 bilhões, com destaque para a indústria brasileira. Só no primeiro trimestre de 2025, exportamos US$ 7,8 bilhões, um recorde histórico.

Mesmo diante das tensões tarifárias, os investimentos continuam chegando. No setor de tecnologia, por exemplo, empresas americanas anunciaram aportes bilionários em data centers no Brasil, sinalizando confiança no potencial de crescimento do mercado digital (um movimento de longo prazo). Ao mesmo tempo, ao meu ver, uma parte do capital que ingressa no país está relacionada ao carry trade, estratégia pela qual investidores captam recursos em países com juros baixos, como o Japão, e aplicam em mercados com taxas mais altas, como o Brasil. Essa diferença de juros gera ganhos, mas o retorno depende da estabilidade cambial: se a moeda local se desvalorizar, os lucros podem rapidamente se transformar em perdas e provocar uma fuga de capitais. Por isso, o carry trade tende a se intensificar em momentos de juros elevados e câmbio estável, mas é essencialmente um fluxo de curto prazo, incapaz de gerar riqueza estrutural.

Cabe a nós, portanto, adotar uma postura pragmática. A estratégia precisa combinar a defesa firme dos interesses nacionais com a criação de um ambiente atrativo para investimentos em setores como agroenergia, minerais críticos e economia verde. É nesse equilíbrio que se encontram as maiores oportunidades: posicionar o Brasil como parceiro confiável de um país que concentra riqueza, tecnologia e capacidade de influência global.

Essa crise não deve obscurecer a visão de futuro. Ao contrário, pode servir de catalisador para a construção de uma relação mais sofisticada, capaz de transformar tensões em convergência estratégica. O Brasil dispõe de recursos, potencial inovador e protagonismo regional; os Estados Unidos oferecem capital, tecnologia e escala global. Mais do que nunca, é hora de abandonar discursos de viés antiamericano e a retórica da escalada política. O país precisa de capital internacional e de um ambiente interno menos burocrático e mais competitivo para atrair recursos de longo prazo.