Por lucas Borges
A ascensão da China produziu uma das grandes mudanças econômicas das últimas décadas. O país tornou-se potência industrial, ampliou sua presença comercial e passou a disputar com os Estados Unidos a liderança em setores estratégicos. Nesse processo, consolidou-se uma narrativa: os Estados Unidos estariam em declínio.
Não há dúvida de que os Estados Unidos perderam participação relativa na indústria mundial e enfrentam desafios importantes. A China avançou sobre cadeias produtivas, ampliou sua influência comercial e tornou-se o principal parceiro de diversos países, inclusive do Brasil. Mas perda relativa de participação não é sinônimo de perda de centralidade.
O próprio desempenho recente da economia americana mostra. O Fundo Monetário Internacional estima que os Estados Unidos cresceram 2% em 2025 e projeta expansão de 2,4% em 2026. O desemprego deve permanecer próximo de 4%.
O ponto mais importante, está naquilo que os Estados Unidos continuam concentrando: capital, tecnologia, inovação, serviços sofisticados e algumas das empresas mais valiosas do mundo. A economia americana pode ter deixado de ser a fábrica absoluta do planeta sem deixar de ser um dos principais centros de criação e captura de valor.
Enquanto existe a discussão dos Estados Unidos estarem perdendo espaço para a China, o Brasil vem perdendo espaço no próprio mercado americano. No início dos anos 2000, aproximadamente 24% das exportações brasileiras tinham os Estados Unidos como destino. Em 2025, essa participação havia caído para 10,8%.
Em 2024, as exportações brasileiras para os Estados Unidos atingiram o valor de US$ 40,4 bilhões. Em 2025, recuaram para US$ 37,7 bilhões. No primeiro semestre de 2026, somaram US$ 17,4 bilhões, uma queda de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. A participação americana nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% em apenas um ano.
Há uma ironia nessa história: enquanto o Brasil se preocupa com a possibilidade de depender excessivamente dos Estados Unidos, talvez o problema econômico seja justamente o contrário. Estamos sub-representados em um dos maiores mercados consumidores e centros de riqueza do mundo.
O tarifaço torna essa vulnerabilidade mais evidente. As novas medidas americanas atingem 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos. Outros 52,7% permanecem sem sobretaxas adicionais específicas ou setoriais. Entre os produtos atingidos estão máquinas e equipamentos, madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.
O efeito já aparece nos números. Entre agosto e dezembro de 2025, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 21,3% na comparação com o mesmo período de 2024, segundo o BNDES. Ainda assim, o comércio exterior brasileiro como um todo conseguiu preservar um superávit, em grande medida porque outros mercados absorveram parte da oferta que deixou de seguir para os americanos.
Essa diversificação é positiva. Mas não deveria ser confundida com substituição.
A China é indispensável para o Brasil. Em 2025, os chineses importaram cerca de US$ 100 bilhões em produtos brasileiros, 6% mais que no ano anterior. Mas há uma característica importante nessa relação: petróleo, minério de ferro e soja responderam por aproximadamente 74% das exportações brasileiras para a China.
Ou seja, devemos nos perguntar por que o Brasil ainda consegue ser tão relevante para a China como fornecedor de commodities e relativamente pouco relevante para os Estados Unidos como fornecedor de bens e serviços de maior valor agregado.
Essa diferença importa porque um país ganha poder de negociação quando seus parceiros precisam dele.
Em vez de aceitar que nossa presença no mercado americano caia de cerca de um quarto das exportações no início dos anos 2000 para pouco mais de um décimo hoje, deveríamos perguntar quais setores brasileiros podem recuperar espaço.
O desafio é ainda maior porque a disputa entre Estados Unidos e China não parece estar produzindo um cenário de fácil substituição geográfica.
É possível que a China continue ganhando espaço em manufatura e comércio. É possível também que os Estados Unidos percam participação relativa em algumas dimensões da economia mundial. Mas isso não significa que tenham deixado de ser centrais.
Para o Brasil, ao meu ver, devemos ampliar presença nos dois mercados, diversificar parceiros e, principalmente, aumentar o valor daquilo que vendemos.
O risco econômico brasileiro, é subestimar um país quando ainda somos pequenos dentro de seu mercado.




