Por Lucas Borges
A recente atualização do mapa da dívida pública global pelo Instituto de Finanças Internacionais (IIF), com base em prospecções do Fundo Monetário Internacional (FMI), colocou dois países sul-americanos entre as 30 economias mais endividadas do planeta em proporção ao Produto Interno Bruto: Brasil e Bolívia. A inclusão simultânea no ranking expõe uma divergência profunda na arquitetura fiscal da América Latina. A região deixou de comportar-se como um bloco homogêneo, passando a registrar uma dispersão histórica no risco soberano. No entanto, a análise fria das variáveis técnicas demonstra que, se por um lado a Bolívia vive o drama da iliquidez cambial e do risco iminente de ruptura estrutural, o Brasil enfrenta uma armadilha substancialmente mais complexa: a erosão lenta e contínua provocada pela taxa de carregamento do seu próprio passivo.
DIVERGÊNCIA ESTRUTURAL E A ARMADILHA DO CUSTO DO CAPITAL
Na Bolívia, o estoque da dívida bruta atingiu 102% do PIB. O fator crítico da economia boliviana não reside no valor nominal do passivo, mas na sua composição e na ausência de amortecedores de liquidez. Com 41,1% do passivo denominado em moeda estrangeira, déficits primários persistentes na casa dos dois dígitos e reservas internacionais líquidas praticamente exauridas, La Paz enfrenta um estrangulamento triplo: fiscal, cambial e monetário. Trata-se do modelo clássico de vulnerabilidade emergente, no qual a escassez de divisas compromete a capacidade de refinanciamento no curto prazo.
A situação brasileira, sob a ótica dos fundamentos de solvência, ostenta contornos diametralmente opostos. A dívida bruta do governo geral gira em torno de 96,5% do PIB — somando cerca de US$ 2,1 trilhões —, com projeção de alcançar 106,5% do PIB até 2031. Contudo, 95% deste montante encontra-se emitido em moeda local (Real) e absorvido pela alta profundidade do mercado financeiro doméstico. A dívida externa representa apenas 4,5% do total, respaldada por uma posição sólida de reservas internacionais. O Brasil, portanto, não carrega risco iminente de insolvência cambial ou de calote soberano tradicional.
O nó górdio da macroeconomia brasileira repousa na taxa de carregamento do seu passivo público. Em 2026, os gastos do governo geral com o pagamento de juros atingem 7,25% do PIB — disparadamente o indicador mais elevado da América Latina —, enquanto o país sustenta um déficit primário de 0,45% do PIB. Em termos comparativos, o México registra um compromisso com juros de 5,98% do PIB mantendo superávit primário de 1,6%, e a Argentina atinge superávit primário de 1,9% do PIB com dívida de 70,4% do PIB.

O PRÊMIO DE RISCO E A DISTORÇÃO DA TAXA NEUTRA
Quando a despesa real com juros suplanta com folga a taxa de crescimento nominal do produto acrescida do esforço primário, a dinâmica da dívida entra em regime de autofinanciamento expansivo. Para atração de capital capaz de rolar papéis do Tesouro com prazos de vencimento curtos e indexação substancial à taxa básica ou à inflação, o mercado exige um prêmio de risco sistematicamente elevado. Essa exigência desloca a taxa de juros real de equilíbrio (a taxa neutra) para patamares estruturalmente altos.
Esse arranjo gera uma distorção severa na precificação de toda a estrutura de capitais do país. O custo de oportunidade para alocação de recursos em ativos de baixo risco torna-se tão desproporcional que impõe uma taxa mínima de atratividade extremamente rigorosa a qualquer projeto produtivo de longo prazo. O efeito prático de um gasto de 7,25% do PIB em juros é a migração da poupança nacional para o financiamento do déficit corrente do Estado, resultando em um inevitável crowding out sobre o investimento privado em infraestrutura, tecnologia e capacidade industrial.
A dispersão da dívida latino-americana demonstra que os investidores e agências de classificação analisam, primordialmente, a capacidade de refinanciamento, o prazo médio dos títulos, a participação de credores estrangeiros e a consistência das regras fiscais. O Brasil possui a vantagem de um mercado financeiro líquido e profundo para absorver suas emissões, mas essa fortaleza atua como um anestésico: posterga o momento crítico de ruptura ao custo de sugar o dinamismo do crescimento econômico.
A superação desse quadro não exige diagnósticos de pânico cambial, mas demanda o reconhecimento de que a sustentabilidade da dívida não é apenas um indicador contábil. A consolidação fiscal e a busca por superávits primários consistentes representam o único mecanismo técnico capaz de fechar a curva de juros futura, reduzir o prêmio de risco e permitir que o país converta o custo do seu passivo em investimentos capazes de impulsionar a produtividade real.




