Por Lucas Borges
A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre uma série de produtos brasileiros entrou em vigor nesta semana e representa uma das maiores restrições comerciais já enfrentadas pelo Brasil no mercado americano. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a sobretaxa atinge aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações (cerca de 26% de tudo o que o Brasil vende aos Estados Unidos).
Mesmo após a ampliação da lista de exceções, o Brasil passa a ocupar uma posição desconfortável no comércio internacional: torna-se o segundo país mais tarifado pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. O dado, por si só, evidencia que a questão extrapola uma disputa pontual e passa a afetar a competitividade da indústria brasileira no maior mercado consumidor do mundo.
Os produtos atingidos incluem setores nos quais o Brasil possui elevada participação internacional, como etanol, máquinas agrícolas, aço, açúcar, papel, calçados e vestuário. São segmentos intensivos em exportação, geração de emprego e investimento.
A justificativa americana
Um aspecto pouco discutido é que a decisão americana não surgiu apenas por razões políticas. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) divulgou uma lista de entidades que apoiaram a medida, entre elas associações de produtores de milho, etanol, biocombustíveis, madeira e agricultores americanos.
O principal argumento é a falta de reciprocidade comercial. Autoridades americanas sustentam que o Brasil aplica tarifa de aproximadamente 18% sobre o etanol importado dos Estados Unidos e destacam que as exportações americanas desse produto para o mercado brasileiro caíram cerca de 87% desde 2018. Outro dado frequentemente citado por Washington é que os Estados Unidos acumularam um superávit comercial de aproximadamente US$ 424 bilhões na relação bilateral ao longo dos últimos quinze anos.
Independentemente de concordar ou não com essa interpretação, ela ajuda a entender que a medida atende também a interesses econômicos domésticos e a grupos organizados dentro da política americana.
O impacto imediato pode ser pequeno. O problema é o médio prazo.
No curto prazo, pouca coisa muda.
Empresas americanas que já possuem contratos com fornecedores brasileiros dificilmente interromperão imediatamente suas compras. Na maior parte dos casos, o aumento do custo será repassado ao consumidor americano, preservando temporariamente os fluxos comerciais.
O problema começa quando essas empresas precisam renovar contratos.
Nenhum importador deseja depender de um fornecedor sujeito a tarifas elevadas e instabilidade comercial. Naturalmente, passa a buscar alternativas em países como México, Vietnã, Índia ou outros concorrentes.
É justamente aí que reside o maior risco econômico.
Segundo estudo da CNI, o Brasil lidera as exportações para os Estados Unidos em quinze mercados relevantes. Em treze deles, essa liderança pode ser perdida caso a tarifa permaneça vigente por um período prolongado.
Perder mercado internacional não significa apenas exportar menos durante alguns meses. Significa perder relacionamentos comerciais, cadeias logísticas e espaço conquistado.
A Seção 301 torna o cenário mais difícil
Outro fator que aumenta a preocupação é o instrumento jurídico utilizado pelos Estados Unidos.
A tarifa foi aplicada com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite ao governo americano impor sanções comerciais sem necessidade de aprovação do Congresso.
Na prática, isso reduz significativamente a previsibilidade de uma reversão rápida da medida e amplia a insegurança para empresas que dependem do comércio bilateral.
E a resposta brasileira?
Também chama atenção a mudança de postura do governo brasileiro.
Nas primeiras reações, predominava um discurso baseado na reciprocidade comercial. Nos últimos dias, entretanto, o tom passou a ser de cautela e negociação.
Do ponto de vista econômico, essa mudança faz sentido. Retaliações costumam gerar custos para ambos os lados e, considerando a assimetria entre as duas economias, uma escalada tarifária tende a produzir impactos proporcionalmente maiores sobre empresas brasileiras do que sobre seus concorrentes americanos.




