Lucas Borges
A economia brasileira tem demonstrado resiliência inicial diante do tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos, apoiada por juros elevados e estoques que suavizam o impacto imediato nas exportações (com o câmbio relativamente estável, algo incomum no atual clima de incerteza).
No entanto, esse fôlego parece limitado. Os setores mais expostos como agroindústria, siderurgia e cadeias a elas vinculadas, devem começar a sentir os efeitos em poucos meses. Especialmente se as tarifas se mantiverem sem compensações ou novos acordos comerciais.
Câmbio: paliativo instável
Contar com o real valorizado ou estável como escudo diante das tarifas traz riscos. O câmbio é sensível a decisões externas como a política monetária dos EUA e a crises domésticas ou internacionais. No curto prazo, um real mais fraco pode restaurar competitividade, mas isso deve ser passageiro. Uma possível desvalorização também tem efeitos e encarece insumos importados, pressiona a inflação e pode forçar o Banco Central a manter a Selic alta, travando o crescimento.
A dependência crítica do agronegócio em fertilizantes
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. Essa dependência é preocupante e se agrava com conflitos geopolíticos. Por exemplo, cerca de 45% da ureia mundial trafega pelo Estreito de Ormuz (rota altamente suscetível a crises). Um conflito nessa região pode dobrar os preços em meses, gerando pressão sobre os custos agrícolas e ampliando os efeitos sobre a inflação dos alimentos.
Medidas estratégicas em curso
Reconhecendo essa vulnerabilidade, o governo colocou em prática o Plano Nacional de Fertilizantes (2022–2050), que estabelece metas ambiciosas, como reduzir a dependência externa para cerca de 50% até 2050.
No curto prazo, lançou o Plano Brasil Soberano, prevendo R$ 30 bilhões em crédito, diferimento fiscal e ampliação do Reintegra para exportadores (um pacote de apoio emergencial aos setores mais afetados pelas tarifas).
Paralelamente, a Petrobras retomou investimentos na área de fertilizantes, com expectativa de suprir até 35% da demanda nacional até 2028, reativando fábricas em diferentes regiões do país.
Internamente, há um esforço coordenado para amparar o setor produtivo, mas a dependência das exportações para os EUA ainda é elevada, onde inclusive, já se nota queda nos embarques. É crucial que se avance em um acordo comercial, pois, embora cerca de 43% das exportações tenham ficado fora do tarifaço, o restante abrange setores que deverão sentir rapidamente os efeitos da retração nas compras, com impacto direto sobre a economia.




