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O tarifaço de Trump exige menos discurso e mais estratégia econômica

Preservar mercados, proteger empregos e ampliar oportunidades exige diálogo técnico, previsibilidade e foco no interesse econômico nacional.

Stefany | Animo Creative

Artigo Meo 2

Por Lucas Borges

A política comercial americana passou a utilizar o acesso ao maior mercado consumidor do mundo como ferramenta de pressão diplomática. O Brasil não é um caso isolado. China, Índia, União Europeia, Canadá, México e diversos outros parceiros comerciais também passaram a negociar sob uma lógica em que tarifas servem como instrumento de barganha para obtenção de concessões econômicas e regulatórias.

Sob essa perspectiva, interpretar as novas medidas apenas como uma retaliação ao Brasil pode levar a um diagnóstico incompleto. O desafio brasileiro é compreender que houve uma mudança nas regras do jogo internacional. Nesse ambiente, respostas exclusivamente políticas tendem a produzir pouco resultado prático.

Os números ajudam a dimensionar o cenário. O estudo mais recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que a ampliação da lista de exceções reduziu significativamente os impactos inicialmente projetados. A estimativa de perdas nas exportações caiu de aproximadamente US$ 15 bilhões para cerca de US$ 11 bilhões, enquanto aproximadamente um quarto dos produtos exportados aos Estados Unidos permanece sujeito às novas tarifas.

Embora o efeito agregado tenha diminuído, alguns segmentos continuam altamente vulneráveis. Cadeias como madeira processada, granitos, revestimentos cerâmicos e parte da indústria calçadista possuem forte dependência do mercado americano. Em alguns casos, mais da metade da produção destinada ao exterior tem os Estados Unidos como principal comprador. Nessas regiões, o impacto ultrapassa os indicadores macroeconômicos e alcança diretamente emprego, renda e atividade econômica local.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que os efeitos das tarifas não recaem exclusivamente sobre os exportadores brasileiros. Empresas americanas que dependem de insumos, componentes industriais e matérias-primas importadas do Brasil também enfrentam aumento de custos e perda de competitividade. Essa interdependência explica, em parte, a ampliação da lista de exceções anunciada pelo governo americano e abre espaço para negociações técnicas.

É justamente nesse ponto que a diplomacia econômica ganha protagonismo. Em vez de concentrar esforços na disputa de narrativas, o Brasil dispõe de ativos estratégicos capazes de fortalecer sua posição negociadora. O país ocupa posição relevante no fornecimento de minerais críticos, como terras raras, além de possuir protagonismo em biocombustíveis, segurança alimentar e cadeias minerais essenciais para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia.

A experiência internacional demonstra que os países que obtiveram melhores resultados diante da nova política comercial americana foram aqueles que privilegiaram canais permanentes de negociação técnica.

Os mercados financeiros parecem compreender essa distinção. O impacto imediato das tarifas sobre os ativos foi relativamente limitado, em grande medida porque parte das medidas já vinha sendo antecipada pelos investidores. A principal preocupação passou a ser menos o anúncio em si e mais a capacidade de construção de uma solução negociada que reduza a incerteza para empresas e investidores. O episódio também oferece uma reflexão importante para o futuro da política comercial brasileira. O Brasil possui ativos econômicos relevantes e relações comerciais diversificadas. Transformar essas vantagens em capacidade efetiva de negociação dependerá mais de uma estratégia consistente de diplomacia econômica. Nesse cenário internacional cada vez mais pragmático, preservar mercados, proteger empregos e ampliar oportunidades exige diálogo técnico, previsibilidade e foco no interesse econômico nacional.